Beatrice, sem saber, me deparaste
amor, me despertaste, sem querer,
e querendo, te entendendo,
me ativaste, no íntimo, disparaste,
só me viste, só te olhei,
teus olhos grandes, e tremi,
temi: quem (não) te vira
na minha vida!; não toquei,
amor, a pele sublime, e sublimado,
bem quisera, a minha paz
te dar, das minhas mãos, através
do tempo, e da distância, sem palavras,
homenagem te render, só tu estás
aí, por teu amor, a penar, mas o teu ser
comigo aqui; eu morrerei, mas contigo
ficará, o meu espírito, na ausência...
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quinta-feira, 9 de setembro de 2010
Ausência de ti - Carlos Durão
Ausência, de ti, esmorece, derrubo, iminente,
temor, perda, trevas, ermo, morte,
desespero, oufego, sede, de ti,
busca, regera, sussurro, de ti, esperança,
sustento, recendo, de ti, valor, presença, de ti,
luz, deslumbrante, ressurreição, de ti,
amor...
temor, perda, trevas, ermo, morte,
desespero, oufego, sede, de ti,
busca, regera, sussurro, de ti, esperança,
sustento, recendo, de ti, valor, presença, de ti,
luz, deslumbrante, ressurreição, de ti,
amor...
Vinte e sete - Carlos Durão
Beijas-me, beijo-te, desde as fontes,
da frente, até às fontes, do prazer, supinas,
beijamo-nos, na flor, aberta, no lírio, ergueito,
desde sessenta e nove, minutos,
até noventa e seis, vezes, e mais
os vinte e sete, momentos, no vão, voamos,
suspensos, no delírio, sacrificamos, no altar,
do amor, fruímos, a pele, túrgida, furiosa,
rolamos, rugimos, até ao êxtase, a ternura,
perspirante, esgotada, exausto, descansas, pouso,
nos teus, meus, braços, felizes, a sermos...
da frente, até às fontes, do prazer, supinas,
beijamo-nos, na flor, aberta, no lírio, ergueito,
desde sessenta e nove, minutos,
até noventa e seis, vezes, e mais
os vinte e sete, momentos, no vão, voamos,
suspensos, no delírio, sacrificamos, no altar,
do amor, fruímos, a pele, túrgida, furiosa,
rolamos, rugimos, até ao êxtase, a ternura,
perspirante, esgotada, exausto, descansas, pouso,
nos teus, meus, braços, felizes, a sermos...
Et in horto robur... - Carlos Durão
Se trabalho a horta, ao meu lado espreita
vizinho carvalho, forte, independente;
vem-me dele rumor, de vento, mansinho;
faz-me companhia, quando cavo a terra;
mas... mete as raízes por baixo da horta,
e... lança-me a sombra, que alonga na tarde,
e... deita as bolotas, quando o vento é forte,
sem eu dar por isso: mas, andando o tempo,
inçam os rebentos, pela terra adiante
na que eu lavrara: pulam para a luz,
plantinhas com vida, com folhas que tremem
e me desafiam... que lhe vou fazer?;
arranco-as vivas, da raiz tremente;
sinto-me assassino, mas volto a o fazer,
uma vez e outra, e volto a perder...;
o carvalho aceja, forte, indiferente
(mas no outono diz, com vento maininho:
“não podes comigo: eu hei de vencer!”),
deita-me a folhasca, e volto a perder...
vizinho carvalho, forte, independente;
vem-me dele rumor, de vento, mansinho;
faz-me companhia, quando cavo a terra;
mas... mete as raízes por baixo da horta,
e... lança-me a sombra, que alonga na tarde,
e... deita as bolotas, quando o vento é forte,
sem eu dar por isso: mas, andando o tempo,
inçam os rebentos, pela terra adiante
na que eu lavrara: pulam para a luz,
plantinhas com vida, com folhas que tremem
e me desafiam... que lhe vou fazer?;
arranco-as vivas, da raiz tremente;
sinto-me assassino, mas volto a o fazer,
uma vez e outra, e volto a perder...;
o carvalho aceja, forte, indiferente
(mas no outono diz, com vento maininho:
“não podes comigo: eu hei de vencer!”),
deita-me a folhasca, e volto a perder...
Na noite - Carlos Durão
Na noite, do trabalho, me ajudaste, sem saber,
me deste: o equilíbrio, que faltava; a esperança,
que pedia, sem querer; e o carinho, para eu ver;
ajudei-te, me disseste, mas não sei se pôde ser;
adeus, companheira, que chegaste
da multidão, ignota, e voltaste
à multidão, anónima, e me deste
vida, nos teus olhos, obrigado, só um instante
te acarinhei, e, então, te despediste;
agora és, só, lembrança (e dóis, ausente).
me deste: o equilíbrio, que faltava; a esperança,
que pedia, sem querer; e o carinho, para eu ver;
ajudei-te, me disseste, mas não sei se pôde ser;
adeus, companheira, que chegaste
da multidão, ignota, e voltaste
à multidão, anónima, e me deste
vida, nos teus olhos, obrigado, só um instante
te acarinhei, e, então, te despediste;
agora és, só, lembrança (e dóis, ausente).
Vírgulas - Carlos Durão
Relembro, a tristeza, dos dias, passados,
do sol, a morneza, relógios, parados,
as águas, que correm, o frio, entanguido,
a morte, chegando, os olhos, cansados,
buscando, não sei: até aqui, cheguei, num tempo
esquecido, a consciência, esgotada, e a vida
partida, sem dor, insistente; e os nenos,
que brincam, nas árvores, crescem: a vida,
dos outros; a minha acabou, o meu tempo,
findou, no presente, e atrás, ficou, silenciado;
não cabe chorar, nem lembrar, tão sequer:
só ver, enterrar, e deixar, para sempre, passar.
do sol, a morneza, relógios, parados,
as águas, que correm, o frio, entanguido,
a morte, chegando, os olhos, cansados,
buscando, não sei: até aqui, cheguei, num tempo
esquecido, a consciência, esgotada, e a vida
partida, sem dor, insistente; e os nenos,
que brincam, nas árvores, crescem: a vida,
dos outros; a minha acabou, o meu tempo,
findou, no presente, e atrás, ficou, silenciado;
não cabe chorar, nem lembrar, tão sequer:
só ver, enterrar, e deixar, para sempre, passar.
Ternura - Carlos Durão
Nos meus braços,
te colher, mulher,
estrolhar-te, ter-te,
em mim, te ser,
abraçar-te, confundir-te,
em mim, não te perder,
com fervor, amor, te acarinhar,
pele com pele, te dizer,
premer, ver, sentir,
com obsessão, o teu recendo,
a saudade, matar, de ti,
banir, amiga, esta distância,
afagar, com ternura, pura,
dar-te, num instante, a minha:
eternidade!
te colher, mulher,
estrolhar-te, ter-te,
em mim, te ser,
abraçar-te, confundir-te,
em mim, não te perder,
com fervor, amor, te acarinhar,
pele com pele, te dizer,
premer, ver, sentir,
com obsessão, o teu recendo,
a saudade, matar, de ti,
banir, amiga, esta distância,
afagar, com ternura, pura,
dar-te, num instante, a minha:
eternidade!
Porque... - Carlos Durão
... te formas,
mulher,
em mim,
te sou...
e é porque,
em ti,
me formas,
homem,
que me és...
mulher,
em mim,
te sou...
e é porque,
em ti,
me formas,
homem,
que me és...
No leito - Carlos Durão
No leito, deitados, despidos,
ele, ela, na casa: dos setenta,
ele; dos quarenta, ela:
aninhando, inhando, com som,
animal, engrunhada, fetal;
rabunha, chia, protesta;
alouminha, acarinha, ele:
acalma, implora, e chora;
cala, ela; sente, ele, a dor,
do seu espinhaço, deforme,
de noites, de meses, de anos,
de tê-la, no colo, a dormir;
“aren’t you strong?” lhe dissera,
com mofa, a Jehovah’s Witness;
mas, e agora? e se se matar?
mas, e a filha? e o livro, marxista,
que escreve, pedido, por outros?
mas, que? importa, algo, a ternura?
perdura? e dela, o sorriso,
dormida, por fim, outra noite?
ele, ela, na casa: dos setenta,
ele; dos quarenta, ela:
aninhando, inhando, com som,
animal, engrunhada, fetal;
rabunha, chia, protesta;
alouminha, acarinha, ele:
acalma, implora, e chora;
cala, ela; sente, ele, a dor,
do seu espinhaço, deforme,
de noites, de meses, de anos,
de tê-la, no colo, a dormir;
“aren’t you strong?” lhe dissera,
com mofa, a Jehovah’s Witness;
mas, e agora? e se se matar?
mas, e a filha? e o livro, marxista,
que escreve, pedido, por outros?
mas, que? importa, algo, a ternura?
perdura? e dela, o sorriso,
dormida, por fim, outra noite?
Eu, sou, tu, minha vida - Carlos Durão
Eu, sou, tu, minha vida,
para ti, aqui, daqui,
sente, sua ternura, dura,
dali, verei, tua beleza,
te susterei, consumir-me-ei,
em ti, no teu, recanto, serei,
e não, te deixarei, contigo,
sempre, infundir-te-ei, amor,
para, seres, para, sempre, no meu,
seio, e eu, no teu, do meu, sangue,
te darei, então, em ti, pegarei,
no meu pulso, serás, no teu pálpito,
serei, te moverei, não mais,
bágoas, começas, hoje, a viver.
para ti, aqui, daqui,
sente, sua ternura, dura,
dali, verei, tua beleza,
te susterei, consumir-me-ei,
em ti, no teu, recanto, serei,
e não, te deixarei, contigo,
sempre, infundir-te-ei, amor,
para, seres, para, sempre, no meu,
seio, e eu, no teu, do meu, sangue,
te darei, então, em ti, pegarei,
no meu pulso, serás, no teu pálpito,
serei, te moverei, não mais,
bágoas, começas, hoje, a viver.
O inferno - Carlos Durão
Ao teu silêncio, condenado,
atoutinho, no escuro, e procuro
a tua voz,
ouço, arfando, na tua ausência,
o silêncio, e te busco
na tua luz,
e apalpo, no escuro, mas só acado,
no silêncio, o começo, duro,
do inferno
atoutinho, no escuro, e procuro
a tua voz,
ouço, arfando, na tua ausência,
o silêncio, e te busco
na tua luz,
e apalpo, no escuro, mas só acado,
no silêncio, o começo, duro,
do inferno
A grafia (e a pronúncia) - Carlos Durão
Na tua, nua
intimidade, pronunciar
os segredos, do teu corpo
te falar, buscar
entre as coxas
a tua flor, amor
beijar, baixar
do teu, corpo
ergueito, ajoelhar
te adorar, percorrer
a tua, grafia
coa minha, língua
firme, abrir
penetrar, demorar
amar, te dar
prazer, ser
o esplendor
do teu, corpo
na tua, nua
intimidade
intimidade, pronunciar
os segredos, do teu corpo
te falar, buscar
entre as coxas
a tua flor, amor
beijar, baixar
do teu, corpo
ergueito, ajoelhar
te adorar, percorrer
a tua, grafia
coa minha, língua
firme, abrir
penetrar, demorar
amar, te dar
prazer, ser
o esplendor
do teu, corpo
na tua, nua
intimidade
Palavras (no escuro) - Carlos Durão
Alvejo-te, admiro-te,
enxergas-me, achegas-me,
descubro-te, acolhes-me,
apalpo-te, apertas-me,
respiras-me, e abro-te!,
e pegas-me, adentras-me,
e deixas-me, amor,
ser,
em ti.
enxergas-me, achegas-me,
descubro-te, acolhes-me,
apalpo-te, apertas-me,
respiras-me, e abro-te!,
e pegas-me, adentras-me,
e deixas-me, amor,
ser,
em ti.
Espelho mentireiro - Carlos Durão
Não te pode dizer
o espelho
a verdade:
a sua imagem é inversa.
Só te pode dizer
a verdade
quem te vê
direito...
o espelho
a verdade:
a sua imagem é inversa.
Só te pode dizer
a verdade
quem te vê
direito...
Na capela de S. Frutuoso...- Carlos Durão
Fruto
não é produto;
fruto é vivo, é começo, semente;
produto
é para uso, usufruto, é anti-fruto;
fruto, como amor,
dá-se, ou conquista-se;
produto vende-se,
consome-se;
fruto dá-se
na árvore, dá-se
a comer, morre,
dá vida;
produto já vem morto,
consome
quem consome;
produto não produz;
fruto reproduz, é fruituro...
ato
perfeito, deixa
fruto.
não é produto;
fruto é vivo, é começo, semente;
produto
é para uso, usufruto, é anti-fruto;
fruto, como amor,
dá-se, ou conquista-se;
produto vende-se,
consome-se;
fruto dá-se
na árvore, dá-se
a comer, morre,
dá vida;
produto já vem morto,
consome
quem consome;
produto não produz;
fruto reproduz, é fruituro...
ato
perfeito, deixa
fruto.
Comover - Carlos Durão
Como ver?
Onde focar?
aquém, sem ver, ainda?
ali, vendo,
o esplendor,
de ser?
além, depois, de vista,
a carne?
ainda além, o corpo,
descarnado?
mais além, trespassando,
a alma?
ou longe, desde o Infindo, amor,
comovido,
a existir?
Onde focar?
aquém, sem ver, ainda?
ali, vendo,
o esplendor,
de ser?
além, depois, de vista,
a carne?
ainda além, o corpo,
descarnado?
mais além, trespassando,
a alma?
ou longe, desde o Infindo, amor,
comovido,
a existir?
Não falemos - Carlos Durão
Não falemos
de amor
(será possível?),
falemos
da dor
(é possível),
do esplendor
de ser...
de amor
(será possível?),
falemos
da dor
(é possível),
do esplendor
de ser...
Numa manhã - Carlos Durão
Numa manhã
fria e molhada,
o vento e a chuiva
a bufar na lixeira,
contra as reixas,
as luzes abraiantes
de Londres a destruir
a intimidade da noite,
o pão do exílio é mau de tragar
fria e molhada,
o vento e a chuiva
a bufar na lixeira,
contra as reixas,
as luzes abraiantes
de Londres a destruir
a intimidade da noite,
o pão do exílio é mau de tragar
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